Farol do Cabo de São Vicente


A Fortaleza do Cabo de S. Vicente é uma construção do séc. XVI, com reedificações nos séculos XVII e XVIII.

Consta que em 1520 existia já uma luz, “um pequeno Pharol, naturalmente muito rudimentar, em uma torre especial do convento da primeira capucha de S. Francisco, que o bispo do Algarve D. Fernando Coutinho, fundara no Cabo de S. Vicente”.

Segundo Frei de Monfort, na sua Crónica da Província da Piedade “a torre serviria aliás ao refugio dos frades que habitavam o convento, quando um dia foram atacados por soldados e marujos luteranos, conseguindo salvar a relíquia de S. Vicente. O mesmo cronista refere ainda que por isso mandou D. João III fazer uma torre mais avantajada e mais forte para resguardo do convento(...)”.

Não foram, no entanto, estas obras suficientes, pois em 1587, o corsário Francis Drake, tomou de assalto o convento, com tal violência que acabou por destruir a torre. Em consequência, o farol manteve-se apagado até 1606, altura em que Filipe II de Portugal terá ordenado a restauração da torre.

O farol do Cabo de São Vicente, tal e qual como hoje existe, tem o nome de D. Fernando e foi mandado construir por D. Maria II, tendo a comprová-lo uma lápide que lavra: “Este farol foi mandado construir por ordem da Snra. D. Maria II sendo Dir. dos faróis do Reino o Brigadeiro Gen. A.C.C.P. Furtado em Out. de 1846”.

O farol entrou em funcionamento em Outubro de 1846. Inicialmente foi equipado com um aparelho catóptrico e de acordo com registos mantidos, a primeira característica luminosa da luz era “branca de rotação completa apresentando eclipses de 2 minutos e clarões de 2 segundos nos intervalos, fornecidos por 16 candieiros do Dr. Argand com reflectores parabólicos de cobre galvanizado a prata (...). A iluminação é de azeite em geral de má qualidade o que obriga os pharoleiros a espevitar os candieiros 4 vezes durante a noite.». A rotação deste equipamento era produzida por um mecanismo de relojoaria e o alcance luminoso rondava as 6 milhas”.

O farol permaneceu votado ao abandono durante largos anos, tendo mesmo atingido um estado deplorável, conforme consta de registos de 1865:

“... no edifício entra a água da chuva por toda a parte (...) a varanda de ferro em roda da lanterna e os gatos que prendem a cantaria, acha-se tudo oxydado e carcomido (...). Na lanterna contei setenta vidros partidos (...) os reflectores dos candieiros acham-se mal limpos (...). (...) as espias e varanda estão em tal estado que é necessário segurá-las por meio de bocados de arame e cordas tornando por esse efeito a limpesa exterior dos vidros da lanterna perigosa e quase impossível (...). Enfim, tudo ali se conspira contra o efeito que devia produzir a iluminação d’este pharol, a que na primitiva se dava 30 milhas de alcance, quando hoje não offerece mais do que 16 milhas e bem pouco esplendor no intervalo dos eclipses. (...) à vista do que acabo de expor torna-se da maior urgencia a transformação dos apparelhos actualmente collocados por um apparelho hyperradiante do ultimo systema adoptado de 2,66m de diametro interior com clarões rapidos muito poderosos, armação e pivot e fluctuador de mercurio que dará satisfação à navegação tão importante n´aquele ponto e obstará ás observações pouco lisonjeiras que se notam nos livros de navegação”.

Em 1897, dadas as precárias condições de conservação do farol e o consequente fraco rendimento da luz que suportava, iniciaram-se trabalhos de desmontagem da lanterna existente e de obras profundas de beneficiação e restruturação, que incluíram alterações na torre, acabando esta por ser alteada em 5,70m.

Em 25 de Março de 1908, concluídas as obras, o farol começou a funcionar com o aparelho hiper-radiante. Com efeito, foi instalado um aparelho lenticular de Fresnel de 1330mm de distância focal – o que lhe confere a categoria de hiper-radiante, actualmente a maior óptica que existe nos faróis portugueses e um dos dez maiores do mundo, consistindo em três painéis ópticos de 8 metros quadrados com 3,58m de altura, flutuando em 313 kg de mercúrio. A fonte luminosa instalada, era um candeeiro de nível constante de 5 torcidas, passando, anos mais tarde, a funcionar com a incandescência pelo vapor de petróleo. A rotação da óptica era conseguida através de um mecanismo de relojoaria.

A característica luminosa, conforme reza o Aviso aos Navegantes da época, era constituída por clarões brancos sucessivos de 5 em 5 segundos, rotação em 15 segundos e o alcance luminoso rondava as 33 milhas.

Em 1914 foi instalado um sinal sonoro.

O farol foi electrificado em 1926 com a montagem de motores geradores, passando a utilizar como fonte luminosa, a incandescência eléctrica.

Em 1947, através da aplicação de painéis destinados a deflectir a emissão luminosa, tornou-se um farol aeromarítimo – uma exigência da navegação aérea durante o período da 2ª guerra mundial. Um ano mais tarde, foi electrificado com energia da rede pública.

Em 1949, foi montado um radiofarol que se manteve em funcionamento até 2001, sendo então desactivado por deixar de ter interesse para a navegação – cumprindo com a política de radionavegação do nosso país e também, a exemplo do que sucedeu com a maior parte dos países de todo o mundo, que extinguiram os seus radiofaróis.

O farol foi automatizado em 1982 e dotado de diversos automatismos, possibilitando-lhe a partir de então, controlar à distância o farol de Sagres. Já em 2001, foi instalado um autómato programável para a rotação da óptica.

A dimensão e beleza do farol e a importância estratégica do local, que atrai milhares de visitantes por ano, ditaram que a Marinha aproveitasse para nele instalar um pólo museológico e criar condições de acolhimento do público, que assim poderá conhecer a sua história, modo de funcionamento, e obser-var de perto toda a imponência de uma óptica que, não só continua a prestar um bom serviço aos navegantes, mas também se constitui como uma peça digna de realce do Património da Marinha.

LocalCabo S. Vicente, Sagres
Coordenadas37° 1' 22.8828"N, -8° 59' 45.8916"W
Altura28 m
Altitude86 m
LuzFl W 5s
Alcance32 M
OpticaHiper-radiante 1330 mm
Ano1846